Resistência de insetos às tecnologias Bt: precisamos trabalhar contra esse cenário


As preocupações quanto à resistência de insetos a tecnologias Bt vêm crescendo ao longo dos últimos anos. É preciso estar atento e trabalharmos contra esse problema.

A resistência de insetos é um fenômeno biológico que ocorre em resposta à pressão de seleção exercida pelos diferentes métodos de controle, sejam eles inseticidas (químicos ou biológicos) ou proteínas Bt. Por isso, a resistência é considerada um dos principais desafios no controle de pragas.

Nas plantas Bt, os insetos resistentes às proteínas inseticidas toleram doses que são letais para a maior parte dos indivíduos que formam uma população da praga. Naturalmente, a elevada adoção de lavouras Bt aumenta as preocupações quanto à evolução da resistência de insetos às proteínas Bt. Por isso, em algumas regiões do mundo, os produtores de milho e algodão Bt têm enfrentado problemas no controle de lepidópteros e coleópteros.

E como podemos evitar esse cenário? Adotando o refúgio. A prática é reconhecida como a mais indicada para retardar o fenômeno da resistência de insetos às tecnologias Bt pois, mantêm a frequência de insetos resistentes baixa.

Evolução da resistência às tecnologias Bt

A resistência de um inseto a um inseticida ou proteína Bt é uma característica genética identificada quando o inseto tolera doses que são letais para a maior parte dos indivíduos que formam a população da praga.

Os genes de resistência às proteínas Bt já estão presentes na natureza. De maneira geral, a frequência esperada do alelo de resistência em uma população de insetos em equilíbrio é rara. A estimativa é que constitua cerca de 1,5 X 10-3 (0,0015), ou seja, 1 inseto resistente a cada 2000 insetos da população.

O risco de adaptação rápida de pragas a um inseticida é altamente dependente da frequência inicial de alelos de resistência nas populações de campo. Essa frequência vai depender da espécie da praga e do tamanho da sua população. Dessa forma, se manejada de maneira correta e estruturada a tecnologia Bt mostra a sua eficiência no controle de pragas.

Porém, o cenário de crescimento do número de insetos resistentes ocorre devido a utilização de métodos de controle (inseticidas e plantas Bt) que acabam selecionando aqueles insetos que apresentam genética resistente.

De um modo geral. após a exposição às tecnologias Bt, a grande maioria dos insetos, que é suscetível às proteínas inseticidas morrem, permanecendo apenas os indivíduos resistentes.

No entanto, se a população de suscetíveis não for restaurada, os insetos resistentes se reproduzem e transmitem esta característica para sua prole, gerando descendentes resistentes e aumentando a respectiva frequência alélica.

Se a cada geração o número de insetos resistentes aumentar, fatalmente observaremos a perda de eficácia das tecnologias Bt.

Casos de resistência no mundo alertam sobre as perdas das tecnologias Bt

O surgimento e a evolução da resistência de insetos-pragas às tecnologias Bt têm se tornado um grande desafio para os agricultores, órgãos reguladores, instituições de pesquisa e empresas. O aumento da frequência de indivíduos resistentes ou de alelos que conferem resistência nas populações representa uma limitação real para a eficácia e longevidade da tecnologia e, portanto, para o manejo das pragas.

Dados de monitoramento da suscetibilidade de Helicoperva zea à proteína Cry1Ac expressa em algodão Bt revelaram aumento substancial da frequência de alelos de resistência em algumas populações da praga nos EUA em 2008. Da mesma forma, casos de resistência de Spodoptera frugiperda ao milho expressando Cry1F em Porto Rico, e de Busseola fusca (Lepidoptera: Noctuidae) em milho contendo Cry1Ab na África do Sul foram reportados em 2006.

A evolução de resistência de S. frugiperda ao milho Cry1F ocorreu apenas quatro anos após a liberação comercial desse evento e se tornou o caso mais rápido de evolução de resistência em campo para uma cultura Bt. Tal fato levou à retirada desse evento do mercado local com o intuito de restabelecer a suscetibilidade do inseto à proteína e o resgate dessa tecnologia para manejo de S. frugiperda em Porto Rico.

A preocupação com a sustentabilidade das tecnologias é evidenciada ao se observar o registro de 19 casos de resistência às proteínas Bt distribuídos em seis países no mundo. 10 casos de resistência nos Estados Unidos, 3 casos em lavouras na Argentina, 2 casos no Brasil e na Índia e 1 caso no Canadá e 1 na África do Sul.

Se levarmos em consideração o início do plantio de culturas Bt no mundo, foram necessários apenas dez anos de cultivo para que os primeiros relatos de resistência dos insetos às cultivares Bt aparecessem. Atualmente, diante de um cenário mais adverso nas populações de insetos, pois o Bt não é mais uma novidade, o esperado é que a resistência seja observada antecipadamente.

Como podemos evitar o problema?

Os estudos sobre evolução da resistência de insetos às proteínas inseticidas revelam que a sustentabilidade das tecnologias Bt é fortemente dependente das medidas preventivas adotadas durante o seu cultivo.

A adoção de um Manejo Integrado de Pragas (MIP) adequado é crucial para evitar ou retardar o desenvolvimento de populações de pragas resistentes. Várias medidas de manejo são recomendadas para evitar ou retardar a evolução da resistência dos insetos-praga. Dentre as principais destacam-se a expressão de altas doses da proteína inseticida, a expressão de duas ou mais proteínas inseticidas (piramidação) e a rotação de genes, no que tange aos desenvolvedores de tecnologias. Já para quem adota a tecnologia no campo, a prática mais recomendada é o plantio de áreas com hospedeiros não-Bt, conhecidas como áreas de refúgio.

Saiba como fazer o refúgio

O refúgio é essencial para controlarmos a população de insetos resistentes às proteínas Bt e continuarmos usufruindo dos benefícios que as culturas Bt entregam.

Principais fontes:

Arends, B. et al. Effectiveness of the natural resistance management refuge for Bt-cotton is dominated by local abundance of soybean and maize. Scientific Report.2021.

Bernanrdi, O., et al. Resistência de insetos-praga a plantas geneticamente modificadas. [A. do livro] A. Borém e G.D. de Almeida. Plantas geneticamente modificadas : desafios e oportunidades para regiões tropicais. Visconde do Rio Branco : Suprema, 2011, Vol. 1, pp. 181 – 207.

Tabashnik, B. E., e Carrière, Y. Global Patterns of Resistance to Bt Crops Highlighting Pink Bollworm in the United States, China, and India. Journal of Economic Entomology. 2019.

Yainna, S. et al. Geographic Monitoring of Insecticide Resistance Mutations in Native and Invasive Populations of the Fall Armyworm. Insects. 2021.