Saiba o que são, para que servem e como funcionam as plantas Bt

Plantação milho Bt

Bactéria de solo Bacillus thuringiensis (Bt) confere resistência a insetos-praga de soja, milho, algodão e cana

Por Luna D’Alama

O ataque de insetos é capaz de causar uma grande redução na produtividade agrícola em todo o mundo. No Brasil, o problema pode ser ainda mais acentuado, pelas condições ambientais e climáticas do País, que favorecem o plantio o ano todo e, por conta disso, a sobrevida de pragas como a Helicoverpa armigera e a lagarta-do-cartucho, que atacam plantações de soja, milho e algodão; e a broca-da-cana, mariposa que atinge o interior do caule da cana-de-açúcar.

Para conter o avanço dos insetos na agricultura e a consequente queda na produtividade, cientistas têm usado a biotecnologia para desenvolver plantas Bt, ou seja, resistente a insetos. A bactéria Bacillus thuringiensis (Bt), naturalmente encontrada no solo, produz uma proteína (chamada Cry) que é tóxica para alguns insetos – das ordens Lepidoptera (borboletas e mariposas), Diptera (moscas e mosquitos), Coleoptera (besouros) e Hymenoptera (vespas, abelhas e formigas) – e também para espécies de nematoides (parasitas), mas não tem efeito sobre outros organismos nem sobre o homem.

Por conta dessa característica, cientistas identificaram no DNA da bactéria Bt os genes responsáveis pela expressão das proteínas inseticidas e os introduziram em plantas de interesse agronômico, como a soja, o milho e o algodão. Os insetos-praga, então, ingerem a planta geneticamente modificada, e a proteína ativa se liga a um receptor específico nas células do intestino deles, que fica danificado e faz com que os animais acabem morrendo.

A produção comercial do Bt como bioinseticida começou em 1938, na França. Na década de 1960, esse microrganismo começou a ser usado por meio da pulverização de esporos sobre as lavouras, pois a proteína Cry contém um alto nível de especificidade e segurança. Em 1999, as formulações contendo Bt já representavam cerca de 80% de todos os bioinseticidas vendidos nos Estados Unidos, sendo, inclusive, utilizados na agricultura orgânica. Em 2015, no mundo inteiro, foram cultivados mais de 83 milhões de hectares com plantas geneticamente modificadas resistentes a insetos. Além disso, estudos apontam que, entre 1996 e 2011, a adoção do milho Bt reduziu em 45% o uso de inseticidas nas plantações.

11 anos de Bt no Brasil

A adoção do primeiro algodão Bt no Brasil ocorreu em 2006 (nos Estados Unidos, foi em 2002), seguida pelo primeiro milho Bt, em 2008 (nos EUA, isso aconteceu em 1995), e em 2013 foi plantada a primeira soja Bt. Em junho deste ano, a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) aprovou para uso comercial a primeira cana-de-açúcar transgênica, que também é Bt. A tecnologia, desenvolvida pelo Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), foi considerada segura sob os aspectos ambiental, de saúde humana e animal. Ao todo, a CTNBio – ligada ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações – já aprovou 43 eventos Bt no País em mais de duas décadas: 30 de milho (entre 40 eventos geneticamente modificados – GM), três de soja (de 13 GM), nove de algodão (de 15 GM) e, agora, um de cana. No caso da soja, as plantas Bt são resistentes a pragas como a lagarta-da-soja, lagarta-das-maçãs, lagarta-elasmo, falsa-medideira, broca-das-axilas e mariposas do gênero Helicoverpa. Alguns eventos Bt apresentam também tolerância a herbicidas como glifosato e glufosinato de amônio.

Segundo a consultoria britânica PG Economics, a média de aumento de produtividade em lavouras de milho Bt em todo o mundo foi de 13% entre 1996 e 2014 e de 16,2% no algodão entre 1996 e 2012, em virtude da redução de danos por pragas. Entre outros benefícios apresentados – não apenas no caso do milho e do algodão, mas também no da soja (visto que a cana GM ainda não é cultivada) –, estão: menor exposição a inseticidas, melhora na qualidade da safra, ganho de eficiência na lavoura, aumento do controle de insetos e diminuição da produção de micotoxinas (substâncias químicas tóxicas que são produzidas por fungos e atingem plantações como as do milho).

Além de otimizar as pulverizações de agroquímicos contra insetos nas culturas, os eventos Bt apresentam benefícios para o meio ambiente, como a preservação de insetos não-alvo e agentes polinizadores, pelo fato de ser altamente específico para as pragas a que se destinam.

Medidas específicas de manejo

A adoção de culturas transgênicas resistentes a insetos exige um manejo especial, explica o engenheiro agrônomo e consultor do Conselho de Informações sobre Biotecnologia (CIB) José Magid Waquil.

“As culturas geneticamente modificadas para resistência a insetos podem ter sua eficácia tecnológica comprometida pela seleção de indivíduos resistentes que são inicialmente raros entre a população da praga-alvo, mas capazes de sobreviver nas plantações Bt, tornando-se maioria após algumas gerações se não forem adotadas algumas medidas específicas de manejo”, afirma. Por isso, táticas que busquem retardar a evolução da resistência são essenciais para a durabilidade dessa tecnologia. Para tanto, é preciso que haja o engajamento de produtores agrícolas de todo o País na correta utilização da biotecnologia e na adoção das boas práticas agronômicas em culturas Bt.

Essas boas práticas contemplam estratégias como a dessecação antecipada do terreno, o uso de sementes certificadas, o tratamento delas com ingredientes químicos e/ou organismos biológicos, a adoção de áreas de refúgio (plantio de parte da lavoura com variedades não Bt de iguais porte e ciclo próximas à área da cultura Bt), o controle eficiente de plantas daninhas, o monitoramento de pragas para verificar a necessidade de aplicações complementares de inseticidas e, sempre que possível, a rotação de culturas, destaca o conselheiro do CIB.

“A rápida adoção das sementes Bt no Brasil é reflexo da eficiência dessa tecnologia no controle de insetos indesejados. A manutenção do desempenho previsto, porém, está totalmente vinculada à aplicação das boas práticas, para que os produtores protejam não apenas seu investimento, mas também a produtividade das culturas Bt”, finaliza Waquil.



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