Plantio direto evita erosão do solo, reduz custos e aumenta produtividade

Plantio direto

Lavoura de soja em Sistema de Plantio Direto (SPD)

Por Luna D’Alama

Várias práticas e tecnologias usadas no campo, como o Sistema de Plantio Direto (SPD), a rotação de culturas, a agricultura de precisão, técnicas modernas e mais eficientes de irrigação e variedades geneticamente modificadas, oferecem soluções para alguns dos desafios atuais e futuros da agricultura, pois viabilizam a exploração de agrossistemas produtivos, com uso reduzido de defensivos químicos. Essas tecnologias contribuem para manter e até aumentar a produção, sem promover o avanço do cultivo para novas áreas.

O plantio direto é uma prática adotada por agricultores para controlar a erosão do solo, reduzir custos de produção (com trator e combustível, por exemplo) e aumentar a produtividade. Conhecido, ainda, como semeadura direta, tem como pré-requisito um solo não lavrado, ou seja, não preparado mecanicamente por arados ou grades. Também deve ser protegido por biomassa residual (palhada) da plantação recém-colhida e por cultivos feitos para esse fim. Além disso, envolve rotação de culturas para atenuar problemas com insetos-praga e doenças.

Esse método baseado no revolvimento mínimo da terra, na formação de matéria orgânica e na rotação de plantas melhora significativamente as condições físicas, químicas e biológicas do solo em comparação com o sistema convencional, destaca o engenheiro agrônomo José Laércio Favarin, professor e pesquisador do Departamento de Produção Vegetal da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da Universidade de São Paulo (USP).

“Além de o plantio direto ser menos agressivo, cerca de 80% da fertilidade do solo depende da matéria orgânica. Esse sistema, portanto, permite a manutenção e até o aumento desses teores. Já a palha evita o impacto causado pela chuva”, explica Favarin. Segundo ele, a camada superficial da terra é a mais fértil de todas, pois contém quantidades elevadas de minerais e material orgânico, que ali se depositaram ao longo de dezenas ou até centenas de anos.

Grãos, hortaliças e cana se beneficiam

Quase todas as culturas podem ser incluídas no plantio direto, a exemplo de grãos, hortaliças e cana-de-açúcar. “As limitações estão nas raízes tuberosas [cenoura, batata-doce, nabo, beterraba e mandioca], nos tubérculos [batata-inglesa] e frutos como o amendoim. Essas culturas necessitam de solos revolvidos para permitir a formação subterrânea e facilitar a colheita”, explica o engenheiro agrônomo Dirceu Gassen, pesquisador e assistente técnico para boas práticas agrícolas e altos rendimentos.

De acordo com dados da Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), o plantio direto está presente em 85% da área plantada de soja e 80% da de milho. Culturas de segunda safra, como algodão (logo após a colheita da soja), feijão, sorgo e girassol, também se beneficiam com esse sistema, aponta a CONAB.

O professor titular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e consultor do Conselho de Informações sobre Biotecnologia (CIB) Marcelo Gravina destaca que a biotecnologia também possibilitou uma grande expansão do plantio direto. “O uso de cultivos tolerantes a herbicidas colabora muito para a utilização desse sistema, pois permite controlar plantas daninhas sem revolver o solo”, afirma.

Plantio direto

Cultivo de milho em plantio direto

Clima brasileiro favorece SPD

No Brasil, o plantio direto foi introduzido a partir da década de 1970, inspirado em modelos europeus e norte-americanos. “Mas eles têm o problema sério de que, no inverno, o solo fica coberto de neve. Por isso, italianos, espanhóis e poloneses – que trouxeram suas técnicas ao migrar para o País – costumavam revolver a terra para aquecê-la daquela solução congelada, senão a germinação demoraria muito tempo. Sem calor, não há energia para emitir a raiz. E, quando uma semente passa muito tempo no solo, fica mais vulnerável ao ataque de pragas e a infecções por doenças”, afirma Favarin. “Aqui, com clima tropical e subtropical, não há necessidade disso”, completa Gassen, que já ministrou palestras sobre agricultura, plantio direto e manejo de pragas em mais de 20 países.

A área plantada com grãos, frutas, hortaliças, cana-de-açúcar e eucalipto hoje no Brasil é de cerca de 60 milhões de hectares, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB). Estima-se que pelo menos metade desse total seja cultivado por meio do Sistema de Plantio Direto – mas, se forem considerados todos os pré-requisitos desse método (como a rotação de culturas), há muitos produtores que não os cumprem, e o número pode ser bem menor.

A maior parte do plantio direto no País ocorre na região subtropical, isto é, abaixo do Trópico de Capricórnio, sobretudo no Paraná e Rio Grande do Sul. “Em 2004, a adoção no Rio Grande do Sul chegou a 80%. No Brasil inteiro, o ritmo foi mais lento, mas há estimativas que chegam a 70%”, afirma Gassen.

“O clima subtropical contribui para o plantio direto, pois nesses locais chove também durante o inverno. Claro que, se esfriar demais, os cultivos vão sentir”, ressalta Favarin. Além da Região Sul, há fazendas que adotam esse sistema no sudoeste goiano (em cidades como Jataí, Rio Verde e Mineiros), Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, enumera. Mas nas regiões tropicais, as estações de chuva e seca são mais definidas, e a estiagem chega a durar meio ano, condição desfavorável à produção de biomassa. “Os maiores desafios do plantio direto hoje estão no Cerrado brasileiro, região com o maior potencial de expansão para a agricultura”, finaliza o especialista da Esalq.

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