Conheça as principais doenças que atingem lavouras de soja, milho e algodão no Brasil

Raio-X doenças

Por Luna D’Alama

Além das boas práticas agronômicas e do Manejo Integrado de Pragas (MIP), é importante que o produtor adote o Manejo Integrado de Doenças (MID), que envolve um conjunto de estratégias e táticas planejadas para controle de diversas patologias na lavoura. Segundo o engenheiro agrônomo, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e consultor do Conselho de Informações sobre Biotecnologia (CIB) Marcelo Gravina, o foco do MID é a redução dos danos resultantes das doenças no campo e, como consequência, a manutenção da produtividade.

“Esse tipo de manejo começa com o conhecimento sobre a ocorrência de doenças na área de plantio, passa pelo monitoramento durante o ciclo de cultivo e vai até a avaliação dos controles realizados e de seu efeito na redução de danos e na produtividade”, destaca Gravina. As estratégias, de acordo com o especialista, envolvem a integração de controles físicos, químicos, biológicos, culturais e genéticos. Nesse último caso, um bom exemplo é o uso de variedades resistentes a doenças, já disponíveis em culturas como o mamão papaia resistente ao vírus da mancha anelar (Papaya ringspot virus), liberado e vendido nos Estados Unidos.

O conselheiro do CIB explica que os patógenos no campo são um grupo bem diversificado de organismos, formado por fungos, vírus, bactérias e nematoides. “Apesar do pequeno tamanho, eles têm capacidade de produzir populações numerosas e causar um grande estrago. Além disso, muitas vezes são resistentes, o que torna necessário o controle por mais de uma estratégia”, afirma. Outra dica de Gravina é adotar a rotação de culturas, que ajuda a reduzir a população de patógenos e o risco de os fungicidas convencionais não serem efetivos.

Abaixo, você confere algumas das principais doenças que atingem plantações de soja, milho e algodão no Brasil:

Soja

1 – Ferrugem asiática (Phakopsora pachyrhizi): É uma doença provocada por fungo e pode aparecer em qualquer estágio de desenvolvimento da planta. São minúsculos pontos mais escuros do que o tecido sadio da folha. Essa patologia é considerada agressiva e pode causar perdas significativas de produtividade. Para controle, deve-se aplicar fungicida preventivamente ou assim que surgirem os primeiros sintomas.

Ferrugem asiática na soja

Ferrugem asiática na soja. Foto: CDS Seixas

Ferrugem asiática na soja

Ferrugem asiática na soja. Foto: CV Godoy

2 – Mofo branco (Sclerotinia sclerotiorum): Outra doença fúngica, é capaz de infectar qualquer parte da planta. A fase mais vulnerável da soja ao mofo branco vai do estágio de floração até o início da formação das vagens. Alta umidade e temperaturas amenas favorecem o surgimento dessa patologia. Uma vez introduzido na área, o fungo é de difícil erradicação. O uso de sementes certificadas e o tratamento de sementes com fungicidas ajudam a combater o problema. É recomendado fazer adubação adequada, plantio direto, manter um maior espaçamento entre linhas, eliminar plantas hospedeiras e adotar rotação de culturas com espécies como milho, sorgo, milheto, aveia branca ou trigo.

mofo branco na soja

Mofo branco na soja. Foto: Maurício Meyer-Embrapa/Baltazar Fiomari

3 – Mancha alvo (Corynespora cassiicola): Mais uma doença causada por fungo que atinge a cultura da soja. As lesões começam com pontos pardos e círculos amarelados em volta, e evoluem para grandes manchas escuras, de até 2 cm de diâmetro. Pode provocar uma severa desfolha e infectar também as raízes da planta. Esse microrganismo é encontrado em quase todas as regiões do Brasil e consegue sobreviver em restos de cultura e sementes infectadas. Alta umidade favorece a proliferação da mancha alvo. Tratamento de sementes, rotação de culturas com milho e gramíneas, e uso de fungicidas ajudam no controle.

Mancha alvo na soja

Mancha alvo na soja. Foto: MC Meyer

Milho

1 – Ferrugem polissora (Puccinia polysora): Causada por fungo, é a doença mais agressiva e destrutiva do milho na região central do Brasil, sobretudo em altitudes inferiores a 650 metros. No Sul, é mais frequente nos plantios feitos após dezembro. As manchas são pequenas, circulares ou elípticas, de coloração amarela, dourada ou marrom. Pode provocar morte prematura da planta, em decorrência da destruição das folhas. Aplicação de fungicidas e plantio fora dos meses de dezembro e janeiro são algumas das práticas recomendadas para amenizar os danos causados pela ferrugem polissora.

Ferrugem milho

Ferrugem polissora no milho. Foto: Clenio Araujo/Embrapa

2 – Podridão branca da espiga (Stenocarpella maydis e Stenocarpela macrospora): Há vários tipos de podridão da espiga, mas a branca é a mais frequente. Os maiores problemas são identificados na Região Sul e em locais de altitudes elevadas. O fungo cresce entre os grãos de milho, que ficam apodrecidos. Esse microrganismo sobrevive no solo e nas sementes, através de esporos, e nos restos de cultura contaminados. O excesso de chuva na época de maturação dos grãos favorece o aparecimento da doença. A rotação de culturas é indicada nesse caso, pois o milho é o único hospedeiro desses patógenos. Fazer a colheita na época apropriada, manter a cultura livre de plantas daninhas e aplicar fungicidas corretamente são outras recomendações importantes.

Podridão da espiga

Podridão branca da espiga de milho. Foto: Rodrigo Veras da Costa/Embrapa

3 – Mancha foliar ou helmintosporiose (Helminthosporium turcicum ou Exserohilum turcicum): Também provocada por fungo, é uma das mais importantes doenças que atingem o milho no mundo. As manchas são de coloração verde ou marrom e acometem mais as folhas, principalmente nos plantios de safrinha. Alta umidade e temperaturas acima dos 18o C favorecem a ocorrência do patógeno, que pode causar um dano econômico significativo, com perdas de rendimento acima dos 50%. Os cultivares de milho pipoca utilizados no Brasil são bastante suscetíveis à mancha foliar, que pode resultar na podridão de sementes e na morte dos brotos. Entre as medidas de controle, estão a escolha da melhor época (entre outubro e novembro) e local para plantio, adubação equilibrada e aplicação de fungicidas.

Mancha foliar no milho

Mancha foliar no milho. Foto: Divulgação

Algodão

1 – Mancha angular (Xanthomonas axonopodis pv. malvacearum): É uma doença provocada por bactéria no momento da germinação, e os sintomas surgem nas folhas, com manchas pardas. As lesões podem se espalhar pelo caule, ramos, maçãs e sementes do algodoeiro, causando a morte da planta. A disseminação desse microrganismo de uma região para outra ocorre principalmente através das sementes. Em uma mesma área, a proliferação se dá pelo vento, água, chuva, irrigação, implementos agrícolas e insetos. Essa bactéria é resistente à dessecação da terra e à radiação solar, podendo sobreviver por vários anos dentro ou sobre as sementes, ou em folhas, caules e maçãs infectadas. Entre as estratégias de controle, estão o uso de sementes tratadas, rotação de culturas, antibióticos e pulverizações preventivas com fungicidas.

Mancha angular no algodão

Mancha angular no algodão. Foto: Divulgação

2 – Mancha de ramulária (Ramularia areola): Conhecida também como mancha branca, é uma das principais doenças do algodoeiro, causada por um fungo. Está presente em todas as regiões produtoras do mundo. Em condições de alta umidade, como o Cerrado brasileiro, esse patógeno encontra o ambiente favorável para se desenvolver e, por isso, demanda várias aplicações de fungicidas durante o ciclo da cultura. Atualmente, a mancha de ramulária é considerada a principal doença do algodoeiro no País, provocando reduções de até 35% na produtividade. As lesões são angulosas ou irregulares, de cor branca, e se manifestam nos dois lados da folha. Rotação de culturas, aplicação de fungicidas com alternância de produtos, utilização de um menor número de plantas por hectare e maior espaçamento entre as linhas são algumas medidas de controle que devem ser adotadas para evitar prejuízos.

Ramulária no algodão

Ramulária no algodão. Foto: Nelson Dias Suassuna/Embrapa

3 – Tombamento de plântulas (Rhizoctonia solani): Esse fungo ocorre em várias culturas, como algodão, milho, soja, feijão, fumo e batata. A incidência e a gravidade da doença estão associadas às condições do solo e à sequência de culturas plantadas na área. Os sintomas mais graves aparecem após o plantio, e pode haver atraso no desenvolvimento da planta, deformação e descoloração dos caules, necrose do tecido vascular e pigmentação de cor púrpura nas folhas. As raízes também são infectadas e algumas delas, destruídas. O desenvolvimento da doença é estimulado por temperaturas baixas e umidade elevada, e o fungo é capaz de sobreviver de um ano para o outro no solo. Recomenda-se a sucessão de culturas com trigo e aveia e a rotação com soja. Se o plantio for sucedido por milho, feijão, batata e tomate, a população de microrganismos pode aumentar. Além disso, deve-se fazer tratamento de sementes, evitar a semeadura profunda e preferir que ela ocorra em períodos quentes, para que as plantas se desenvolvam mais rápido.

tombamento algodão

Tombamento de plântulas no algodão. Foto: Clemson University



Eventos